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MV Bill

O cenário é dos mais violentos do Rio de Janeiro. A Cidade de Deus - um conjunto habitacional com cerca de 120 mil moradores-; é uma favela urbana cravada no seio de Jacarepaguá, bairro da zona oeste, com todos os ingredientes para uma mistura explosiva: guerra entre traficantes, pobreza, carências extremas, injustiças sociais. Um homem de 26 anos, olhos de lince e tatuagem no braço musculoso está acostumado a olhar para aquele mundo com atenção de felino. Antes, porque era um "soldado do tráfico" e precisava estar ligado no movimento. Hoje, porque narcotráfico, blitz, desvios sociais impostos à juventude negra e oprimida, violência, racismo, enfim, os dramas humanos vividos nos guetos negros são a matéria-prima com a qual MV Bill faz sua poesia. Ou melhor, faz rythm and poetry, rap. "O tráfico seduz porque oferece poder, ostentação. Muitos vão por ingenuidade, ignorância, dinheiro, falta de opção, de perspectivas. Graças a Deus, tive minha mãe, que me incentivou muito a voltar a ser uma pessoa normal. E tive o rap no meu caminho, para voltar a me integrar. O rap tem o poder de salvar, de dar um direcionamento positivo a essas pessoas. Mostrar que nem tudo é entregue ao gatilho", ressalta Bill. Carioca da Cidade de Deus, participou da coletânea "Tiro Inicial", que revelou novos talentos do rap nacional — como Gabriel o Pensador — em 1993, ainda como integrante de um grupo. Antes de decidir-se pelo rap, Bill chegou a defender um samba-enredo composto por seu pai na quadra de uma escola de samba. Mais tarde adotou a alcunha de MV (Mensageiro da Verdade) Bill, e não revela seu verdadeiro nome. Com letras marcadas pela denúncia social, lançou em 1998 o disco "CDD Mandando Fechado" pelo selo Zâmbia (com produção dos Racionais Mano Brown e Ice Blue), relançado pela Natasha Records/BMG um ano depois com o título "Traficando Informação" e com três faixas inéditas . Ainda em 99 participou do Free Jazz Festival, evento praticamente sem tradição com artistas de rap brasileiro da periferia, sem apoio da grande mídia. No show do Free Jazz, MV Bill escandalizou ao se apresentar com uma arma na cintura — que mais tarde afirmou ser de brinquedo, este ato foi manchete em todo os jornais. "Fui chamado por uma jornalista de marginal, de psicopata. Ela disse no ar que 'queria minha cabeça'. Teve meia dúzia que não quis entender, só para dar polêmica, audiência, ibope para o jornal. Mas, naquele momento do Free Jazz, eu era um personagem encarado por milhares de brasileiros como o desvio. E tive a oportunidade de mostrar a posição da favela diante do desarmamento. Até então, só a população de seqüestráveis tinha dado a opinião deles", explica Bill, que, no final da apresentação, tirou a arma da cintura e a colocou, suave e simbolicamente, sobre um lenço branco, a cor da paz. Polêmica à parte, a verdade é que, para quem teve a infância padrão da favela - "estudar até onde der, jogar bola todo dia, trabalhar em banca de jornal, como guardador de carro e na feira" - a voz de MV Bill ecoa dentro e fora do gueto, impulsionada pela força de seu próprio talento e personalidade. "Sou a pessoa menos indicada para servir de referência para estas crianças", confessa, cercado pela garotada da comunidade, que parece não pensar o mesmo. "Mas uma entrevista na RAÇA, meu videoclipe, meu CD, o Free Jazz e algumas conquistas que tenho em mente são boas referências para elas", reconhece, e acrescenta esperançoso: "Nosso povo não gosta de ser negro, mas, à medida que a informação e a auto-estima forem crescendo, as coisas podem mudar. Tenho planos de desenvolver projetos sociais na comunidade. E, enquanto eu não vir as coisas se transformarem, os pretos numa posição melhor, não paro de fazer rap. Tá ligado?"  Entre suas atitudes consideradas "extravagantes" estão o fato de só dar entrevistas na Cidade de Deus e de usar o pseudônimo Alex Pereira Barbosa como nome alternativo. O rapper ficou ainda mais conhecido em 2000, ao estrelar uma campanha publicitária de televisão contra o vandalismo em telefones públicos. Ao adotar as iniciais MV, na frente do apelido de infância, o rapper quis marcar sua posição artístico-ideológica. Respeitado e querido dentro de sua comunidade, o passado, entretanto, faz que esse "Mensageiro da Verdade" viva até hoje um jogo de identidades. "Não gosto de me guiar muito por nome de batismo. E o fato de eu quase não sair da Cidade de Deus está ligado ao passado. Existem pessoas que não querem esquecer o que aconteceu", constata. Para quem não conhece muito da cultura hip hop, é bom explicar que MV Bill pertence a uma linhagem de rappers que mantém certa distância do "sistema". Não são lá muito chegados a apresentações em programas de TV e a dar entrevistas, como os Racionais MC'S, por exemplo. "Mas como, entre eles, alguém tinha que falar com a imprensa, o eleito foi MV Bill", esclarece o empresário e produtor Celso Athayde.
Seguro, com idéias bem articuladas e português corretíssimo, Bill aceita o posto, mas avisa: "Eu não vou a qualquer programa. Vou àqueles que me interessam, que atendam às minhas necessidades, aos que vão mudar até acharem o meu formato", diferencia.

discografia

Traficando informação - 1999